Sobre: Quando o que sempre foi deixa de ser

O problema desse tipo de mudança, por mais clichê que possa soar, é que você nunca espera que venha acontecer. Não é por culpa do orgulho, tampouco desse sentimento esnobe que se imagina – não é que sejamos especiais e, por isso, essa regra não se aplica a nós.
Tem muito mais a ver com o timing da situação. Nunca se é um momento propício para começar o nosso filme do gênero “drama”. Nós nunca seremos protagonistas de nossas próprias histórias e os enredos complicados nunca vão convergir para uma história linear e entendível – na vida real, muitas vezes, começa antes mesmo dos créditos inicias.
Começa com pouco. Existe uma incerteza, uma insegurança a mais, um hábito que, até então, nunca existiu. Fica claro aos olhos dos espectadores que o que a impede de sair de casa não é o problema “A” ou o problema “B”, até porque não tem problema: se é o problema.
Perdeu-se a confiança, conforme os dias nos quais acordávamos com os saltos altos soando ecoados pela casa escoaram de nossas vidas. De repente, aquela regra de ouro, o cabeleireiro marcado sempre no mesmo dia e no mesmo horário vai ser substituído pelo compromisso inadiável ou pelo cálculo equivocado no extrato do banco – não vai dar tempo ou não vai dar dinheiro!, disse, com a voz em cadência ao final.
Porém, a pior parte é quando todos esses pequenos sinais se consolidam. Sempre existem catástrofes familiares e a concretização de todos os medos, quando o espectador toma coragem de dizer “aconteceu!”, provavelmente se dará depois de uma tragédia do tipo.
A pressão vai mostrar as rachaduras; o estresse, a falta de saúde física; as lágrimas mostram a fraqueza emocional e os pedidos de ajuda são o limite.
– Aconteceu!
A muralha da China, tão imponente e sadia – por vezes incerta de suas opiniões, mas nunca incerta de suas capacidades – caiu. Ruiu como se tivesse sido programada para tanto.
Num primeiro momento, em que pese a dar o devido desconto pela situação que lhe proporcionou essa brecha para a queda, mesmo que não acreditemos que seja causa e sim oportunidade, o que se sente é a raiva. Como se deixa de ser alguém tão imponente? Como diabos uma personalidade tão forte se submete aos caprichos da nova geração acovardada? Acorde, reaja, volte a ser quem era!
Os conselhos serão recebidos com ressentimento. O que sobrou da capacidade de ser forte, daquela teimosia arraigada, agora se traduz numa amargura ressentida – só há força para se magoar. “Me dê crédito! Entenda o meu lado! Enxergue meu ponto de vista!”, suplica. Os xingamentos voam, o desespero impulsiona, de repente, tudo vai por terra.
Depois que a poeira baixou, no meio dos escombros, que podem durar dias, meses, você vai achar ela de novo. Pequena, encolhida, chorando – precisando de um apoio que você não sabe como dar, afinal, você nunca precisou exercitar sua capacidade de ser a fortaleza de outra pessoa – pelo menos, a fortaleza dela. Pacientemente, você se abaixa, pergunta se está tudo bem e ela não vai mentir: não está.
O segundo momento, provavelmente o que se eterniza junto com o arrependimento de não ter entendido aquela situação antes, é aquele no qual você se dá conta de que é culpa sua – quem mandou esperar que estivesse ali para sempre? Nada é sempiterno, principalmente para você, dita cética arraigada, desconfiada e fria. Você que sempre preconizou a incapacidade humana de lidar com o tempo fez uma exceção terrível e agora paga por ingenuidade.
Agora, é lidar com os cacos. Juntá-los parte a parte, mesmo que você saiba que eles vão cair novamente. Agora, você assume – tenta lidar com responsabilidades próprias e adquiridas. Agora, você está no controle.
Seja imponente. Seja forte. Use saltos altos que ecoarão de manhã cedo. Tenha sempre aquele horário reservado no cabeleireiro.
E, na melhor das hipóteses, tente se enganar de que o fim da vida e o envelhecimento natural do corpo e do espírito nunca vão conseguir te alcançar.

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Resenha rápida: O Lado Bom da Vida de Matthew Quick

Resenhas rápidas servem para falar sobre livros dos quais não me vejo tentada a discorrer com maiores propriedades. Leia-se (de forma educada), livros que não gostei.

O Lado Bom da Vida de Matthew Quick me deixa na dúvida se a vida (pelo menos nesse contexto) realmente tem um lado bom.

Um dos artifícios de um autor é se usar do estilo de narrativa de seu livro para levar o leitor a vários lugares. Por exemplo, por meio de uma narrativa fechada em uma pessoa só, na primeira pessoa, o autor consegue esconder fatos da história, filtrar o que bem quer, a fim de causar um impacto diferente no leitor. O mocinho, nesse caso, pode ser o vilão. O vilão, o mocinho (leia-se Snape, aqui, ok?).

Eu adoro esse tipo de artimanha. Mas ela tem que ser bem usada, como tudo na vida.

Na minha última resenha, eu abordei isso brevemente com o personagem de Palahniuk e, apesar de ainda não ser o auge da manipulação narrativa, Tender Branson ainda consegue ser dissimulado por baixo de toda aquela camada de discurso indireto.

O personagem desse livro, o tal do Pat Peoples, não consegue se usar disso. Enquanto, pelo que parece, Quick quis deixar seu personagem com um tom de “inocência” (?), afetamento mental e simplicidade, tudo o que conseguiu foi deixá-lo com a voz de uma criança de 5 anos tentando ser adulta – e não no bom sentido da coisa.

Frases repetidas, raciocínios e construções de frase que lembravam um idiota falando o tempo inteiro – esse foi “O Lado Bom da Vida”.

A história, de fato, é simples. Começa com Pat sendo tirado de dentro de um hospício. Num primeiro momento, não temos nem mesmo a informação sobre como ele foi parar lá. Sabe-se, porém, que ele ama Nicki.

Quanto à Nicki, você, enquanto leitor, imagina várias coisas: ela é uma vaca, ela é uma vítima, ela é uma construção do imaginário de Pat e ela é uma vaca (sim, de novo). Porque a abstração que Nicki representa é tão grande que se começa a questionar de tudo.

Entende-se que, o que quer que tenha acontecido com Pat, deva ter fundamento na relação dos dois, como é explicitado o livro inteiro. Mas, novamente, devo considerar esse livro um desperdício – não estou tendo sorte nos últimos tempos.

De qualquer modo, Matthew Quick, pelo menos, tentou: ele quis mostrar a cura (?) de um homem que teve sua vida virada de cabeça para baixo com problemas psicológicos. Para mim, tanto Quick quanto Peoples falharam – nenhum dos dois atingiu seus objetivos.

O livro ainda tem alguns outros subplots – tramas como a amizade de Pat Peoples com seu psiquiatra, a intensa busca do rapaz de um corpo perfeito (para Nicki), sua relação com a (doida) da Tiffany (suposto amor de cura do livro) e a interação entre a mãe e o pai de Pat. Achei um enredo muito enroscado em desnecessidades – havia muita coisa passível de bolinha-de-papel-e-lixo, mas que acabou ficando no enredo… nem eu sei explicar porque diabos ficou.

Eu não ouso dar mais do que duas estrelas a esse livro. Quando a primeira impressão é ruim e é a primeira impressão que se tem com o personagem principal, a não ser que haja uma reviravolta mirabolante ou um plot digno de sobs de fangirl, nada me ajuda para elevar o rating do livro.

11

 

 

Até a próxima,

 

C.R.

Book Haul Retroativo: Março de 2015

Continuando a tradição, temos hoje o Book Haul Retroativo de Março de 2015.

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Brincando com Fogo Gordon Ramsay

Comprei esse livro por impulso numa liquidação de uma livraria da minha faculdade. Não me entenda mal, sempre adorei Gordon Ramsay e seu vocabulário sexy, então, na verdade, foi um achado.

No momento em que escrevo esse livro, posso dizer que já li a obra e, de fato, me surpreendi em alguns sentidos. Primeiro: não é uma história. Para quem espera algum tipo de biografia, vai se decepcionar com o livro. Segundo: eu não me decepcionei. Eventualmente, vou fazer a resenha desse livro e contar mais a fundo, mas devo dizer que muito se pode aprender com a visão (sincera) de quem já cresceu muito na vida e está disposto a ensinar quem também deseja isso.

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Quimioterapia e BelezaFlávia Flores

Outro livro proveniente daquela liquidação de faculdade, mas que li em um dia, rapidinho. Esse livro, a despeito do tema, não é triste. Na verdade, é um daqueles raros livros que, ao prometerem algo, não cumulam sensações intrusas. Quando Flávia Flores diz que vai falar sobre o tratamento de seu câncer e que vai também tratar sobre a possibilidade de uma paciente do câncer de manter sua beleza, ela não está mentindo. Não existe aquele rastro de autopiedade na narrativa: ela expõe tudo de forma clara, límpida e rápida, sem lenga lenga e, mais importante, não se esquecendo em nenhum momento de que, por mais feliz que se possa abordar um tema como esse, não se pode em momento algum subestimar a força de uma doença como o câncer.
CAIXA_DE_PASSAROS_NAO_ABRA_OS_1419970578428836SK1419970578BCaixa de PássarosJosh Malerman

Esse, infelizmente, eu ainda não li, motivo pelo qual os deixo com a sinopse oficial.

“Romance de estreia de Josh Malerman, “Caixa de Pássaros” é um thriller psicológico tenso e aterrorizante, que explora a essência do medo. Uma história que vai deixar o leitor completamente sem fôlego mesmo depois de terminar de ler.
Basta uma olhadela para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Ninguém é imune e ninguém sabe o que provoca essa reação nas pessoas. Cinco anos depois do surto ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ela sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas a viagem que tem pela frente é assustadora: uma decisão errada e eles morrerão.”

Até a próxima,

 

C.R.

Resenha: Sobrevivente – Chuck Palahniuk

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  • Livro: Sobrevivente
  • Autor: Chuck Palahniuk
  •  360 páginas
  • Sinopse:

Tender Branson sequestra um avião e decide se matar. Mas, enquanto o avião possuir combustível, ele resolve contar a história de sua vida para a caixa-preta, numa tentativa de explicar como diabos um sujeito decadente como ele quase se transformou em uma celebridade religiosa.

Segundo livro de Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta, Sobrevivente é uma história cheia de ironia e sarcasmo, que usa como cenário um país que tropeça em seus próprios valores, e onde qualquer um pode virar modelo de qualquer coisa.

Esse livro tem uma premissa ótima.

Infelizmente, isso não quer dizer que ele seja bom.

Tender Branson mora num apartamento pequeno de banheiro compartilhado onde vive com seu peixe (número 641, se não me engano) e trabalha numa mansão, limpando, organizando e guiando seus patrões. Vindo de uma comunidade com uma religião (interessantíssima, mas pouco explorada), ele é o esquisitão da paróquia.

Ele alimenta seu peixinho com Valium e só tem o pobre coitado como companhia. De noite, por um erro singelo num anúncio de jornal, ele recebe ligações de pessoas que estão prestes a cometer suicídio. Seu trabalho, ou ocupação noturna, então, não é tirá-las da linha de risco, mas incitá-las a ir mais rápido para o Outro Lado.

E se fosse só isso, se o livro seguisse essa premissa, seria ótimo.

Mas a primeira cena da narrativa, a primeira de verdade, é ele sequestrando um avião e avisando à caixa-preta que vai se matar. Ele vai deixar o bendito do avião cair e vai morrer ali dentro. É aí que começa o problema.

Nunca li nada de Palahniuk e, depois de ver o filme (e o final) de Clube da Luta, nem pretendo. Não porque não gostei, mas porque, em conjunto com esse livro “Sobrevivente”, já saquei a linha de escrita do autor. E, quando isso acontece, só dá pra continuar se você se identifica muito com o modo de pensar de quem está escrevendo. E, nesse caso, isso não aconteceu comigo.

Chuck quer nos causar um choque de realidade. Ele quer mostrar que nós vivemos num mundo horrível e que tudo é absurdo. Ele faz isso ao alimentar peixes com Valium e fazer seu personagem responsável pelos impulsos finais que levam alguém ao suicídio. E, de fato, não discutiria com ninguém que ele teria sucesso em alcançar seu objetivo. Mas isso era se ele se mantivesse ao que propusera inicialmente.

O livro diverge demais. Você segue a leitura e, de repente, se encontra num ambiente completamente diferente e, por mais que eu entenda que talvez isso tenha sido proposital, de difícil credibilidade.

Por uma breve pesquisa no Google, é possível encontrar algo chamado Suspensão de Descrença Voluntária. O termo foi usado por Samuel Taylor Coleridge em uma frase muito famosa sua e que resume muito bem o problema desse livro. Quando lemos algo como Harry Potter, As Crônicas de Gelo e Fogo e outras dimensões mágicas como essa, temos que deixar de lado algo muito importante: a noção de credibilidade.

Dragões não existem. Mas isso não impede ninguém de ler Harry Potter. Isso se deve ao fato de que, devido à uma construção válida de narrativa, o autor do livro consegue, por alguns momentos, suspender a descrença do leitor voluntariamente. Pelo tempo no qual lemos o livro, acreditamos que, dentro da história, aquilo pode ter acontecido. Porque a narrativa nos leva a tal e porque, de um jeito ou de outro, é assim que aconteceu e, pelo menos, faz sentido dentro daquele contexto.

A Suspensão de Descrença Voluntária, porém, é escassa. A minha, por exemplo, é quase inexistente. Uma das críticas implícitas que eu faço ao ler os livros que leio é justamente isso: qual a possibilidade de algo acontecer como aconteceu? Não no sentido óbvio da coisa: eu não estou pedindo por livros maçantes que retratem a realidade porque ela é a única coisa que pode realmente acontecer. Não, não é isso. O que eu quero é que o autor me ajude o mínimo que seja, se esforce a me fazer acreditar. Do contrário, eu já perco o interesse de cara.

Palahniuk não se esforçou. Novamente, reconheço que possa ter sido essa a ideia inicial, mas isso não muda nada a falta de vergonha escrachada do autor em sequer se preocupar com o tom descrente da narrativa.

E, isso, para mim, já basta por si só.

Por um outro lado, eu gostei, sim, da estrutura do livro. Afinal, como todos os outros, ele tem seus prós e contras. Entenda-os como quiser.

  • As páginas e capítulos estão de trás para frente. Você começa na página 360 e termina na 1 e isso dá um toque a mais de ansiedade em termos de final de livro.
  • Tender Branson quase não fala diretamente. Toda sua existência é praticamente baseada em discurso indireto. Isso talvez tenha a ver com a ideia de Palahniuk em esboçar o quão apático seu personagem é e realmente funciona, porque ele pode muito bem ser considerado tão ativo quanto seu peixinho dourado chapado de Valium.
  • Ele dá dicas incríveis (e duvidáveis) sobre organização e limpeza de casas. É fato que algumas delas envolvem situações absurdas, como o truque no qual ele ensina como disfarçar o buraco de uma bala que furou a sua parede, mas isso não tira nenhum mérito.
  • Se tivesse que resumir esse livro em uma palavra, esta seria “desperdício”. Olha essa premissa!
  • Tender Branson parece um idiota. Mas, sim, isso é um pró, porque, como eu disse, ele só “parece” um idiota. É possível, mesmo por detrás da narrativa em primeira pessoa do livro, notar a “voz do autor”, onde ele dá passagens óbvias de sagacidade e ironia ácida. Branson brilha nesses momentos.
  • É um livro cru, nu e cruel. E, sim, isso é um pró.
  • O livro envolve pessoas que descobrem o futuro, fama, mídia, aterro de pornografia, seitas ortodoxas e rígidas, desastres, viajar pelos EUA em pedaços de casas a serem montadas e mais um monte de baboseira. Lide com isso se puder.

Leria de novo? Não.

Recomendo? Depende de quem vai ler. Como eu disse, é um livro cru.

No máximo, duas estrelas.

11

Até a próxima,

 

C. R.

Resenha: Tempo é Dinheiro – Lionel Shriver

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  • Livro: Tempo é Dinheiro
  • Autor: Lionel Shriver
  • 465 páginas
  • Sinopse:

Resenha sem spoiler!

Shep Knacker sempre economizou para a “Outra Vida”: um retiro idílico no Terceiro Mundo, onde um modesto pé-de-meia poderia durar para sempre. Os engarrafamentos de Nova York seriam substituídos por tempo para “falar, pensar, ver e ser” – e por horas de sono suficientes. Quando ele vende sua empresa de consertos domésticos por um milhão de dólares, parece que seu sonho finalmente será realizado. Ainda que Glynis, com quem é casado há 26 anos, sempre arrume desculpas e diga que nunca é o momento certo para partirem. Cansado de trabalhar como um peão para o idiota que comprou sua companhia, Shep anuncia que está de mudança para uma ilha na Tanzânia, com ou sem a esposa.
Recém-chegada de uma consulta médica, Glynis também tem um anúncio a fazer: Shep não pode ir a lugar algum. Ela está doente e precisa desesperadamente de seu plano de saúde. Mas o convênio cobre apenas parte das despesas incrivelmente altas do tratamento, e o pé-de-meia de Shep para a Outra Vida parece se desfazer a cada dia.
Um romance brutalmente honesto, Tempo é Dinheiro acompanha as transformações de um casamento que é posto à prova ao mesmo tempo que se fortalece com as exigências de uma doença grave, e se revela uma inesperada oportunidade para a ternura, a renovação da intimidade e o humor ácido. Em uma pesada crítica aos sistemas de saúde, Lionel Shriver se atreve a fazer a temida pergunta: quanto custa a vida de uma pessoa?

O problema de se discursar sobre algo que muito se gosta é que a imparcialidade da coisa vai para o espaço. A resenha desse livro que vos farei me é custosa porque exige da minha pessoa toda a retidão exigível para a demonstração de algo que valha a pena. Pode ser a melhor coisa do mundo, mas, se temos isso jogado em nossa cara, subitamente, não mais o é.

A tradução livre do título original desse livro de Lionel Shriver seria algo como “Tanto pra nada” ou “Tudo isso pra nada” ou uma variação mais indiferente do que acabei de passar. Esse, no entanto, não é o título original. Com o perdão da ausência de prova, li em algum lugar que Shriver queria dar um título similar ao usado na versão brasileira (“Tempo é Dinheiro”) o que, inicialmente, desagradou os editores pelo tom auto-ajuda que passa.

Mas, infelizmente, ou felizmente para os mais sádicos leitores de Shriver (como eu), o livro é sobre isso mesmo: o esforço de uma vida inteira convertido em dinheiro e o consequente fracasso desse plano (o que não é spoiler, considerando que é a premissa do livro).

Sheperd Armstrong Knacker é um faz-tudo que criou sua empresa do zero e a vendeu nos meados de sua vida com um simples propósito: a angariação de fundos para a viagem para a Outra Vida. Shep é desde pequeno assombrado pela ideia de que seu dinheiro vale muito menos desse lado do mundo do que do outro. Por toda sua vida ele economizou para poder mudar-se para esses locais isolados, com economia pequena e onde um dolar lhe compra uma bicicleta e mais algumas coisas. E agora ele está prestes a fazer isso.

Conhecido pela importância que dá ao dinheiro, paradoxalmente, Shep banca tudo a todos e, ao mesmo tempo em que planeja economizar para viver sua aposentadoria prolongada em outro canto do mundo, sustenta tudo ao seu redor. O homem é um santo e um imbecil, os dois ao mesmo tempo, regrado e sugado por todos. Que ele vá embora se torna o desejo imediato do leitor quando o panorama geral da vida do Knacker é apresentado.

O livro abre com a arrumação das malas e Shep o faz como um ladrão. Ele está com tudo pronto e só precisa que sua esposa, Glynis Knacker chegue em casa para que ele lhe dê o últimato: venha comigo ou seja abandonada!

Mas quando Glynis chega e aceita uma temerária dose de bourbon, ela não traz boas notícias. O diagnóstico de um câncer raro é a notícia da noite e, oficialmente, ela está em tratamento.

Correndo o risco de ser prolixa, eu preciso de um parágrafo sobre Glynis Knacker: se houvesse uma profissão que lhe ensinasse a arte de ser foda, ela seria a professora, com o perdão de Chuck Norris. Ela é dura, fria, inflexível, mas brilhante, sagaz e estupidamente elegante. Ela se aproveita de sua doença para assistir e se deliciar com o sofrimento alheio: não é o tipo de personagem com câncer que inclina a cabeça para o lado e junta as mãos no colo para apreciar a vida. Ela não tem medo de odiar todo mundo, não tem medo de ser incisiva e também não se deixa levar pela necessidade alheia de “ter compaixão antes que seja tarde”. Sua ocupação (e ocupação é uma palavra incerta considerando que supõe habitualidade, o que não há nesse caso) é ser metalúrgica, artista de jóias que envolvem em seu âmago, o metal.

Sendo Lionel Shriver fã de uma metáfora, uma das primeiras dadas por ela no livro é a melhor: a da fonte de casamento que Shep e Glynis construíram em equipe e que simboliza a interação dos dois. Glynis seria o metal – inflexível e brilhante, tornada verdadeira por sua personalidade rancorosa e ríspida – enquanto Sheperd seria a água – vai de acordo com o fluxo, apesar de possuir uma força que advém da insistência e que muito diz sobre o personagem.

O centro do livro é esse. A interação entre esses dois polos diferentes e, por mais que outros planos sejam explorados, como o incrível plot da família Burdina (um pai revoltado com o país, uma mãe que é uma máquina, uma filha com disautonomia familiar e outra com necessidade de atenção constante), é difícil bater a relação entre esse casal, em termos de interesse.

Esse subplot que mencionei, da família Burdina, vale a pena ser deixado no escuro. Apesar de secundário, é de alta qualidade. E é maravilhosamente irônico.

5

Tempo é Dinheiro não se tornou meu livro favorito por ser bonito. Também não foi por possuir uma história inspiradora ou que te faça dar uma olhada em volta para renovar suas relações. Tempo é Dinheiro, porém, te inspira a se dar conta de que a vida pode ser ridícula: que seus planos pouco valem a pena caso o “destino/deus/insira-sua-crença-aqui” realmente decida que não é esse o caminho que você vai seguir. Não existe outra nota que não seja a de cinco estrelas.

Consegui ser imparcial?

Não, eu sei.

Mas não tem problema. Como eu disse, os planos nem sempre vão como previstos.

Até a próxima.

 

C. R.

Book Haul Retroativo: Fevereiro de 2015

Continuando com o Book Haul Retroativo 2015, o mês de Fevereiro foi para mim quase temático, principalmente depois que o Submarino deu a doida e colocou metade dos livros de Lionel Shriver na promoção.

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Precisamos Falar sobre o Kevin  Lionel Shriver

O livro que consagrou Lionel Shriver no mundo da escrita é, para mim, um dos grande motivos pelos quais eu acredito que o elo de adoração pais-e-filhos nem sempre é perfeito.

Trata-se de um livro visceral, motivo pelo qual é um dos meus preferidos dela. Aqui, as metáforas dela, as elaborações trabalhadas de diálogos reais estão no auge e o desenvolver da trama angustia, prende e arrasa o leitor.

Não é livro para qualquer audiência, isso é fato. Existem cenas tão absurdamente expostas, como carne viva, que o incômodo é quase inescapável. É por causa de livros pé no chão como esses que Lionel Shriver é a minha escritora favorita.

dupla-faltaDupla Falta – Lionel Shriver

Esse, até o momento, eu não li ainda. Considerando que os outros tomos de Shriver são absurdamente caros aqui no Brasil (chegando à audácia de custar algo entre R$75,00 e R$100,00), eu escolho com cuidado quando leio qualquer livro dela.

Esse trata de competição entre marido e mulher, o que acredito que vai ser fantástico (!) considerando a visão que Shriver tem de casamento.

Tenho planos de leitura dele para esse ano ainda.

 

 

Baixar-Livro-O-Mundo-Pos-Aniversario-Lionel-Shriver-em-PDF-ePub-e-MobiO Mundo pós Aniversário – Lionel Shriver

Sabe aquele livro que você pega e espera um milhão de coisas dele? Claro, esse foi melhor. O Mundo Pós-Aniversário foi, sem sombra de dúvida, um dos melhores de 2015.

Eu li e vou reler a fim de fazer resenha, mas desconheço que seja capaz de captar toda ambientação, toda vibe de um livro como esse.

Ramsey Acton foi, é e sempre será uma tremenda crush minha. Lawrence que se exploda. E, agora, eu a-do-ro sinuca.

 

 

grande-irmao-lionel-shriver-ligia-braslauskas-livro-600Grande Irmão – Lionel Shriver

Os livros de Shriver tem a curiosa característica de possuírem títulos que enganam o leitor num primeiro momento. Esse, como qualquer um imagina ao pegá-lo, não se trata de uma distopia de um mundo controlado por uma entidade opressora. A não ser que a obesidade seja considerada uma entidade, caso no qual, então, o título se encaixa perfeitamente no conceito.

Já li também e acredito que tenha que reler uma ou duas vezes para conseguir fazer resenha. Baba-ovo mil para qualquer livro de Shriver, mas, na minha opinião, nenhum livro pode ser compreendido em uma leitura só, principalmente se for dela.

EnsaioPássaros FeridosColleen McColough

Não, essa não é a edição que eu comprei. Que ódio.

Na verdade, a minha veio de um sebo enormemente pequeno na Consolação, onde achei a edição mais surrada do mundo desse livro que li quando ainda estava no ensino fundamental.

Se eu planejo lê-lo novamente? Talvez, quem sabe.

McCollough tem a incrível capacidade de instigar o afeto para com seus personagens. Frank, mesmo depois de quase 10 anos, ainda me gruda na caixa craniana.

 

Finalizando o Book Haul Retroativo de Fevereiro de 2015, terminamos com cinco livros comprados e, desses cinco, quatro livros. Só não li todos porque economizo histórias, principalmente as quais antecipo tantas.

Até a próxima.

C. R.

Book Haul Retroativo: Janeiro de 2015

Apesar de eu ter começado esse blog somente no meio do último semestre de 2015, não acho justo deixar para trás tudo que aconteceu antes da minha estréia. Considerando que começamos um novo ano, vou fazer um Book Haul retroativo. Mensalmente divido em dois posts, explico o que comprei em Janeiro de 2015 e Janeiro de 2016.

Janeiro de 2015:

TEMPO_E_DINHEIRO_1336092650BTempo é DinheiroLionel Shriver

Estou lendo esse livro agora. De. Novo.

A minha primeira aquisição do ano passado foi da minha autora preferida, Lionel Shriver. Eu era bem mais nova quando peguei esse livro pela primeira vez, na Biblioteca de São Paulo e, apesar do tema ligeiramente mórbido, mais voltado para a sick-lit, eu me apaixonei pelo estilo de escrita de Shriver. Na minha opinião, em termos de ironia e escrita seca, completamente nua, não existe ninguém melhor que ela.

Depois desse tomo, fui atrás de outros, para descobrir mais sobre o que havia dentro da cabeça de Lionel Shriver. Diante disso, descobri vários outros volumes, os quais comprei sem hesitar. Veio “Precisamos falar sobre Kevin”, “O Mundo Pós-Aniversário”, “Grande Irmão” e ainda os outros livros dela que preciso ler.

Mas “Tempo é Dinheiro” foi a porta de entrada. Farei review dele aqui no blog.

Sinopse:

‘Shep Knacker sempre economizou para a “Outra Vida”: um retiro idílico no Terceiro Mundo, onde um modesto pé-de-meia poderia durar para sempre. Os engarrafamentos de Nova York seriam substituídos por tempo para “falar, pensar, ver e ser” – e por horas de sono suficientes. Quando ele vende sua empresa de consertos domésticos por um milhão de dólares, parece que seu sonho finalmente será realizado. Ainda que Glynis, com quem é casado há 26 anos, sempre arrume desculpas e diga que nunca é o momento certo para partirem. Cansado de trabalhar como um peão para o idiota que comprou sua companhia, Shep anuncia que está de mudança para uma ilha na Tanzânia, com ou sem a esposa.
Recém-chegada de uma consulta médica, Glynis também tem um anúncio a fazer: Shep não pode ir a lugar algum. Ela está doente e precisa desesperadamente de seu plano de saúde. Mas o convênio cobre apenas parte das despesas incrivelmente altas do tratamento, e o pé-de-meia de Shep para a Outra Vida parece se desfazer a cada dia.
Um romance brutalmente honesto, Tempo é dinheiro acompanha as transformações de um casamento que é posto à prova ao mesmo tempo que se fortalece com as exigências de uma doença grave, e se revela uma inesperada oportunidade para a ternura, a renovação da intimidade e o humor ácido. Em uma pesada crítica aos sistemas de saúde, Lionel Shriver se atreve a fazer a temida pergunta: quanto custa a vida de uma pessoa?’

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A Noite Devorou o MundoPit Agarmen

O segundo e último livro que eu comprei em Janeiro foi uma viagem para uma filosofia da sociedade atual e, aproveitando o ensejo contemporâneo, se utilizou de um aspecto de obsessão presente que está em tudo quanto é canto: zumbis.

Leitura rápida, mas impactante. Não deixa de ser verossímil por se tratar de um apocalipse zumbi.

Eventualmente, chegarei a fazer a resenha desse volume aqui no blog.

Só não vou dizer que recomendo a todos. É o tipo de leitura que quem gosta tem uma tendência para a solidão e a melancolia, afinal, é sobre um cara que sobreviveu ao apocalipse e agora vive sozinho, tentando sobreviver. Ele não é herói, tampouco seria o centro de uma história como “The Walking Dead”. A filosofia fala mais alto aqui.

A humanidade estava em decadência e a extinção era apenas uma questão de tempo. Mas a natureza não quis esperar. Uma epidemia atacou os seres humanos e os transformou em criaturas demoníacas, famintas, com predileção pela carne humana. No mundo inteiro, as pessoas estão se transformando em zumbis. Antoine Verney é um sobrevivente e o anti-herói por excelência do livro de Pit Agarmen, pseudônimo (e anagrama) do escritor Martin Page, autor de Como me tornei estúpido. Neste inusitado romance, Page faz uma fábula sobre a sociedade de consumo e a apatia que transformou a todos em mortos-vivos, destilando a melancolia e a ironia que marcam a sua obra.
No livro, Antoine desperta de uma bebedeira em um apartamento vazio, com um morto na sala e sinais de luta pelos aposentos. Por mero acaso, seu porre memorável e a capacidade de não se fazer notar salvou sua vida. Ele não fica tão surpreso assim. Afinal, há muito tempo que a humanidade atingiu o último estágio da decadência, da selvageria e da crueldade.
Enquanto os zumbis lotam as ruas de Paris, Antoine pensa estar seguro em um luxuoso apartamento com vista para Montmartre. Assim como um Robinson Crusoe moderno, Antoine aprende a sobreviver e a enfrentar a solidão. O estigma de ser o último ser humano paira sobre sua cabeça, e a dor e o pânico de uma vida inútil ameaçam a sua lucidez. Armado com um rifle, ele se surpreende ao descobrir que pode matar e que ainda possui talento para isso. E é nesta descoberta e na invenção de uma nova vida que encontra forças para não enlouquecer e seguir adiante.
Em A noite devorou o mundo, Agarmen mostra como é possível contar uma assustadora história sem perder o lirismo e o humor. Um livro capaz de surpreender os mais empedernidos fãs dos zumbis.

O mês de Janeiro, portanto, fechou com essas duas aquisições. Ótimas, por sinal.

Para falar a verdade, fiquei bem dentro do orçamento, que estabeleço em três livros por mês, cumulativamente.

Ambos tomos já foram lidos, para não me desgraçar mais ainda.

Até a próxima,

C.R.

Resenha: Um Momento, Uma Manhã – Sarah Rayner

Um momento uma manhã

Nada descreve esse livro como a palavra tranquilidade.

  • Livro: Um Momento, Uma Manhã
  • Autor: Sarah Rayner
  • 310 páginas
  • Sinopse:

7:44. É hora do rush no trem de Brighton a Londres. Um evento irá mudar para sempre a vida de três passageiras.

Sem ter mais o que fazer e por força do hábito, Lou analisa discretamente os passageiros. Perto dela, está um casal. A mulher parece distraída e o marido, ao seu lado, acaricia carinhosamente a mão dela. De repente essa cena quase íntima é interrompida abruptamente: o homem tem um infarto. Karen, a mulher, não consegue reagir. O que há de errado com Simon? O trem para. Os paramédicos chegam.

Alheia ao alvoroço que está acontecendo em outro vagão, Anna deixa sua revista de lado. Por que o trem parou? Ela tem uma importante reunião e não pode se atrasar.

Depois do tumulto na chegada à estação, Anna e Lou acabam compartilhando um táxi para Londres. São duas desconhecidas unidas pelo episódio daquela manhã: Lou testemunhou os últimos momentos de vida de um homem, cuja mulher, Karen, é coincidentemente a melhor amiga de Anna.

E assim os destinos dessas três mulheres se entrelaçam, tal como os passageiros que se cruzam nas estações. Para Karen, Anna e Lou, a partir daquele momento, naquela manhã, a vida não será mais a mesma…

Uma história emocionante e envolvente sobre família, amor, perda e, acima de tudo, sobre a força das amizades forjadas pelas circunstâncias da vida. Assim como o trem, a vida precisa seguir em frente. E Karen, Anna e Lou sabem disso.

!!!Resenha com spoilers!!!

De uns tempos para cá, li livros com um ritmo animado, coisas acontecendo simultaneamente, personagens que se enroscam, cenas que tiram fôlego.

Talvez seja por isso que esse livro tenha se chocado contra a minha opinião. Não me entendam mal: ele não é ruim. A narrativa é verdadeira e é um plot “crível” a despeito de qualquer comentário que eu venha a fazer a seguir.

Encaixe-se o entretanto nessa linha.

Ninguém (pelo menos eu) abre um livro para algo que é possível ver no dia a dia. Rayner conta a história, ou melhor, o desdobramento de fatos que se desencadeiam de uma morte inesperada. Eu entendo os motivos dela: é interessante ver como algo tão próximo/distante como a morte nos afeta. Só que isso é interessante quando fica no background ou quando as mudanças desenvolvidas não são “esperadas”.

Sou sincera, não li buscando o final feliz. Li querendo ver alguém cometendo atrocidades diante do luto, li imaginando um conhecimento pessoal absurdo de um dos personagens, li querendo que meu queixo caísse.

Só pra ter uma ideia, é difícil dar spoiler desse livro: existem três personagens. Karen, mãe de família que perde o marido muito cedo e muito subitamente; ela é basicamente o cerne da narrativa, lidando com os filhos e com as consequências da morte de Simon. Ana é sua melhor amiga, casada com Steve, um pintor com baixa autoestima e que é alcoólico. Lou, por final, é uma terapeuta gay que não contou a sua mãe sobre sua opção sexual.

O jeito como Rayner quis entrelaçar as três foi interessante, não devo negar. Entretanto, o interesse para aí. Karen convalesce lentamente da morte de seu marido. Ana chuta Steve para fora de casa. Lou sai do armário.

Eu sei, deve perguntar, “e daí?“, mas esse é o meu problema: é só isso.

Não se pode esperar muito de um livro com essa premissa. Eu talvez tenha me interessado mais pela perspectiva de um fluxo de pensamento instigante e não um fluxo de ação inebriante. Eu não esperava o físico, esperava o mental. O físico se desenrola na sucessão de acontecimentos; o mental, pela sucessão de pensamentos e revelações internas.

Em Um momento, uma manhã não há nenhum dos dois.

É a vida, uma paisagem simples, como a primeira imagem que consegui achar para ilustrar esse post. Não deixa de ser bonito, como as águas acimas. Não deixa de ser profundo, até um pouco triste, mas é.só.isso.

Não vou dar mais de uma estrela para esse livro. Quero me surpreender, tirar meu próprio fôlego. Não quero uma preview de vida. Obrigada, eu espero pelo programa completo.

1

Até a próxima.

C.R.

Resenha: A Voz do Arqueiro – Mia Sheridan (Signos do Amor/04#)

Capa

  • Livro: A Voz do Arqueiro (04# – Signos do Amor)
  • Autor: Mia Sheridan
  • 325 páginas
  • Sinopse:

Cada livro da coleção Signos do Amor é inspirado nas características de um signo do Zodíaco. Baseado na mitologia de Sagitário, A voz do arqueiro é uma história sobre o poder transformador do amor.

Bree Prescott quer deixar para trás seu passado de sofrimentos e precisa de um lugar para recomeçar. Quando chega à pequena Pelion, no estado do Maine, ela se encanta pela cidade e decide ficar.

Logo seu caminho se cruza com o de Archer Hale, um rapaz mudo, de olhos profundos e músculos bem definidos, que se esconde atrás de uma aparência selvagem e parece invisível para todos do lugar. Intrigada pelo jovem, Bree se empenha em romper seu mundo de silêncio para descobrir quem ele é e que mistérios esconde.

Alternando o ponto de vista dos dois personagens, Mia Sheridan fala de um amor que incendeia e transforma vidas. De um lado, a história de uma
mulher presa à lembrança de uma noite terrível. Do outro, a trajetória de
um homem que convive silenciosamente com uma ferida profunda.

Archer pode ser a chave para a libertação de Bree e ela, a mulher que o ajudará a encontrar a própria voz. Juntos, os dois lutam para esquecer as marcas da violência e compreender muito mais do que as palavras poderiam expressar.

!!!Resenha com Spoiler!!!

Talvez por um preconceito habitual, eu tenha certo receio de chegar perto de histórias com finais felizes, ou HEA (Happily Ever After). Sou mais chegada a literatura realista,  aquela que quase nunca termina com um final feliz: Lionel Shriver, digamos assim.

Mas eu gostei da premissa desse livro. O girl-meets-boy aqui é clássico: moça machucada pela vida encontra homem machucado pela vida e os dois se curam simultaneamente. E, a despeito do fato de que é realmente nessa base, eu não consigo precisar o motivo pelo qual A Voz do Arqueiro entrou pro meu top 7 facinho, facinho.

Começaremos pelo óbvio: Mia Sheridan apela pesado com Archer Hale. Quem não gosta do herói machucado pela vida? Quem não gosta de se colocar no lugar da heroína, Bree Prescott, que junta os cacos de um coração destroçado pela tragédia? Aliás, o apelo de qualquer livro da série “Sabrina, Julia e Bianca” é geralmente esse. Na leitura de “A voz do Arqueiro” você vai encontrar descrições que categorizam Archer Hale como “beijado pelo sol” ou com “olhos cor de uísque”, bem como a clássica descrição de um orgasmo como “uma explosão de mil pontos de luz” e suas variações habituais. Se visto pela lente crítica, o livro é simples e não passa de uma história de amor para quem realmente gosta delas.

A diferença vem com um detalhe em Archer: ele não fala. Depois de ter perdido a voz num acidente misterioso, ele isola-se do mundo e de todos, tornando-se o esquisitão da cidade, a quem todos teimam e ignorar e, no final, ele realmente prefere assim.

Acho que foi o mistério que envolve ele que me pegou de jeito. O modo incomodado e cheio de chateação que ele lida com a intrusa Bree Prescott é fascinante, e, digamos de passagem, é mais fácil se apaixonar por um bad-guy do que pelo mocinho, certo?

Eu devo dizer que um dos motivos pelos quais li esse livro é porque sempre tive curiosidade no modo como os autores descrevem uma deficiência em especial. Existe muito estereótipo e Sheridan em nenhum momento escapa deles, mas não chega a ser um manual de como ser estereotipada ao criar um personagem: Archer tem algo a mais.

Eu me apeguei aos personagens. Porque Sheridan construiu um homem corajoso e ao mesmo tempo extremamente inseguro. Achei que o tom “Sabrina” de todo o livro se desviou quando Archer confessa a Bree que ela é tudo para ele e não no sentido romântico da coisa: no sentido prático no qual ela o tirou de um estilo de vida que ele se acostumara e apresentara um novo mundo que, na ausência dela, desmoronaria. Quando revela-se a situação doentia desse amor, quando entendemos que Archer é dependente de Bree (algo que nunca ninguém quer usar de adjetivo para um homem belo e misterioso) a parte romântica da história cai por terra. Agora não é sobre boy-meets-girl, é sobre uma existência falha, dependente, completamente danificada.

Sheridan vai além porque mostra o que acontece depois que a heroína salva o herói de seu mundo de tristeza; os créditos não sobem quando o primeiro desentendimento se resolve, ou seja, não quer dizer que dali para frente todos os problemas serão ultrapassados. Existem um porém depois do primeiro “felizes para sempre” e é o da própria existência de Archer. Ele continua precisando de Bree, cada vez mais e mais dependente. Nessa hora, ele acaba ficando difícil de gostar, porque simplesmente não é o tipo de relação que alguém quer. Existem cenas, como as de Archer entrando no café onde Bree trabalha, para saudá-la em meio ao seus amigos, nas quais vemos o lado adolescente sonhadora de Mia Sheridan. É o que toda adolescente quer, não é? Relacionar-se com um homem belo, misterioso e charmoso que aparece para fazer inveja para todos no seu trabalho. É uma cena que faz você sorrir como uma criança, o coração apertado de felicidade no peito. Mas Sheridan também consegue apertar seu peito com o outro lado da moeda: ao fazer o leitor ficar com pena do herói e uma pena genuína, porque o problema não parece ter solução.

Uma das curvas mais emocionantes da trama é ver Archer entrando em um pânico desesperado ao imaginar que Bree havia morrido num acidente de carro quando ela parou de responder suas mensagens, quando na verdade ela somente havia derrubado o aparelho numa poça de água em frente ao McDonald’s. É possível sentir a vergonha que ele sente, uma demonstração de sentimento exacerbada que não se justifica, principalmente pelo fato de que ele tem um ataque de pânico por causa do seu temor de ter perdido Bree. É horrível ver um homem crescido se desconstruir numa criança assustada como o que acontece com Archer.

De repente, você se importa e se desespera: aquele homem dá a noção de que precisa ser protegido, guardado, segurado entre os braços enquanto chora tudo o que perdeu na vida. Ele é uma criança. Não é um homem para se amar como um parceiro de cama, alguém que faz sexo com você no meio da noite e te leva ao orgasmo (mesmo o que seja descrito como “uma explosão de um milhão de pontos de luz”).

Em determinado ponto, de um jeito curioso e que exige um pouco de vista grossa pelo modo de urgência com o qual se resolveu o problema, Sheridan consegue recuperar o que nos faz acreditar que Archer pode se relacionar com Bree sem que a relação se torne trágica/absurda. Uma viagem dele com seus demônioa consegue curar o medo dele e fazê-lo voltar para Bree como alguém mudado.

E, depois de um cliffhanger que me fez tremer enquanto eu lia, chega o HEA.

Mas, depois que fechamos o livro, não fica aquela sensação satisfeita que se espera de um HEA como esse. Fica um incômodo, uma sensação estranha demais. É o tom de realidade que deixa aquela camada rançosa na língua, aquele desencontro de vontades. Por essa seriedade, esse tom realista e trágico, eu adorei esse livro. Coloquei-o na estante há pouco mais de 23 horas, mas já quero pegá-lo de novo Quero lê-lo novamente, conhecer Archer mais uma vez, mas dessa vez sem subestimá-lo como um rapaz qualquer com um problema qualquer.

Definitivamente, um livro 5 estrelas.

Em termos de escrita, Sheridan é direta e não há muita enrolação, nem mesmo quando é preciso descrever o sexo. Achei isso fantástico, ninguém precisa de meio termo para descrever algo tão normal quanto uma relação entre duas pessoas que se amam.

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O livro faz parte de uma série de outros 12, acredito, cada um falando de um signo do zodíaco, sendo esse o de sagitário. Se lerei ou não, não sei dizer. Acho que preciso de um tempo de distanciação para descobrir isso.

Até o próximo post.

C.R.

Resenha: Pequenas Grandes Mentiras – Liane Moriarty

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  • Nome: Pequenas Grandes Mentiras
  • Autor: Liane Moriarty
  • 400 páginas
  • Sinopse:

Todos sabem, mas ainda não se elegeram os culpados. Enquanto o misterioso incidente se desdobra nas páginas de Pequenas grandes mentiras, acompanhamos a história de três mulheres, cada uma diante de sua encruzilhada particular.
Madeline é forte e passional. Separada, precisa lidar com o fato de que o ex e a nova mulher, além de terem matriculado a filhinha no mesmo jardim de infância da caçula de Madeline, parecem estar conquistando também sua filha mais velha. Celeste é dona de uma beleza estonteante. Com os filhos gêmeos entrando para a escola, ela e o marido bem-sucedido têm tudo para reinar entre os pais. Mas a realeza cobra seu preço, e ela não sabe se continua disposta a pagá-lo. Por fim, Jane, uma mãe solteira nova na cidade que guarda para si certas reservas com relação ao filho. Madeline e Celeste decidem fazer dela sua protegida, mas não têm ideia de quanto isso afetará a vida de todos. Reunindo na mesma cena ex-maridos e segundas esposas, mães e filhas, bullying e escândalos domésticos, o novo romance de Liane Moriarty explora com habilidade os perigos das meias verdades que todos contamos o tempo inteiro.

O primeiro livro de Liane Moriarty que li foi, de acordo com o Goodreads, porque eu mesmo não lembro, em 2014, “O Segredo de Meu Marido”. Particularmente, esse volume de 2013 contava uma história mais que adorável sobre uma trama de segredos e inverdades que me deixou grudada nas páginas do primeiro capítulo até o último, num frenesi vigoroso para saber o que acontecia depois.

Inverdade seria dizer que isso não ocorreu com “Pequenas Grandes Mentiras”, mas também o seria se o dissesse que foi no mesmo frenesi. Não foi.

O plot do livro é fantástico: um assassinato ocorre na noite de um evento na escolinha de uma comunidade muito burguesa e cheia de loiras oxigenadas e ricaços com mansões. Inicialmente, não se sabe quem matou sequer quem morreu, o que eu acho que deu ao livro um aspecto muito legal de mistério e constante tentativa de adivinhar não somente o nome do assassino, mas também do assassinado.

Não vou ser megera e dar spoiler, mas o que eu digo é que: se entrarem com a minha mentalidade, nunca descobrirão quem são um ou outro. Eu fiquei, de fato, chocada no final ao descobrir o desfecho, mas pareceu lógico e válido, nada forçado.

O livro peca, porém, em sua lentidão para desenvolvimento da trama. Não sei dizer se ter lido a outra obra de Moriarty estragou meu paladar, considerando seu ritmo mais rápido e focado em diversos pontos de vistas entrelaçados, mas achei Pequenas Grandes Mentiras um pouco lento, para dizer a verdade.

A construção do que ocorreu se deu cronologicamente e cada capítulo começava com uma contagem regressiva para o dia no qual o evento anunciado no início do livro se daria. Criou uma expectativa muito grande, mas acho que acabou escorregando por demorar demais para saciá-la. Eu fiquei ansiosa com o texto, muitas vezes completamente irritada com cenas que, sinceramente, não faziam muito sentido na trama em geral.

Houve muita preparação para algo que poderia ter sido entregue mais rápido e de forma mais abrupta, como para tirar o fôlego de quem lia.

Um pró em termos de narrativa foram os diálogos diretos que aconteciam no final de cada capítulo. Como o assassinato já havia sido apresentado por uma nuvem de incerteza e silhuetas irreconhecíveis no começo da trama, o finalzinho de cada capítulo tratava do inquérito para a descoberta do culpado, com diálogos hilários.

Havia, de fato, uma certa confusão, considerando que esses diálogos aconteciam rapidamente e sem nenhuma apresentação dos indivíduos que eram interrogados. Sabia-se somente que haviam participado de alguma forma do evento no qual se dera o assassinato. Contudo, assim que se pegava o ritmo, ia tudo muito deliciosamente ácido e engraçado, um aspecto na escrita de Moriarty que simplesmente não se pode negar.

Em questão de POV (Pontos de vista), o livro aborda a visão de Madeline, uma mãe atarefada e ligeiramente estabanada que tem um casamento sólido com um homem normal. Há muito nela daquele estereótipo de mãe privilegiada, em termos do modo como age com as outras mães da escola de seus filhos, com rivalidades colegiais e conversas absurdamente sem conteúdo e raciocínio. Entretanto, isso não quer dizer que ela seja de todo mal: Madeline é feroz em termos do que quer para si e para seus filhos, bem como para seus amigos e família. Boa parte da trama se desenvolve diante das medidas que ela toma para assegurar isso.

Madeline se torna, bem no começo do livro, amiga de Jane, uma mãe solteira e misteriosa que não gosta de se arrumar do mesmo jeito que as mães daquela comunidade gostam. É o que Moriarty deixa claro logo de cara na narrativa. Jane é simples e prática. Tem um garotinho lindo que tem um brilho ainda mais enigmático do que o da mãe, e ele é responsável pela trama principal de quase todo o livro. Ela não é uma personagem superficial como os outros POVs parecem, inicialmente. Ela é como a garota nova no colegial que, de algum modo, se mete no meio das patricinhas e vive dentro de seus conflitos.

O terceiro e último ponto de vista é o de Celeste. Por mais que, inicialmente, ela pareça completamente rasa e sem vontade própria, descrita como absurdamente linda e rica, com uma família perfeita, com um marido maravilhoso e uma vida invejável, Celeste não é só isso. A trama mais pesada da história fica por parte dela, o que não vale contar aqui porque o choque ao ver do que se trata é interessante demais para ser estragado. No fim, ela acaba sendo a parte mais interessante de todo o plot do livro.

Infelizmente, Pequenas Grandes Mentiras não é mesmo O Segredo de Meu Marido. Há uma doce conexão entre os personagens que falta nesse último lido. Contudo, não deixa de ser divertido.

De cinco, quatro estrelas.

4

Até a próxima,

C.R.