Sobre: Quando o que sempre foi deixa de ser

O problema desse tipo de mudança, por mais clichê que possa soar, é que você nunca espera que venha acontecer. Não é por culpa do orgulho, tampouco desse sentimento esnobe que se imagina – não é que sejamos especiais e, por isso, essa regra não se aplica a nós.
Tem muito mais a ver com o timing da situação. Nunca se é um momento propício para começar o nosso filme do gênero “drama”. Nós nunca seremos protagonistas de nossas próprias histórias e os enredos complicados nunca vão convergir para uma história linear e entendível – na vida real, muitas vezes, começa antes mesmo dos créditos inicias.
Começa com pouco. Existe uma incerteza, uma insegurança a mais, um hábito que, até então, nunca existiu. Fica claro aos olhos dos espectadores que o que a impede de sair de casa não é o problema “A” ou o problema “B”, até porque não tem problema: se é o problema.
Perdeu-se a confiança, conforme os dias nos quais acordávamos com os saltos altos soando ecoados pela casa escoaram de nossas vidas. De repente, aquela regra de ouro, o cabeleireiro marcado sempre no mesmo dia e no mesmo horário vai ser substituído pelo compromisso inadiável ou pelo cálculo equivocado no extrato do banco – não vai dar tempo ou não vai dar dinheiro!, disse, com a voz em cadência ao final.
Porém, a pior parte é quando todos esses pequenos sinais se consolidam. Sempre existem catástrofes familiares e a concretização de todos os medos, quando o espectador toma coragem de dizer “aconteceu!”, provavelmente se dará depois de uma tragédia do tipo.
A pressão vai mostrar as rachaduras; o estresse, a falta de saúde física; as lágrimas mostram a fraqueza emocional e os pedidos de ajuda são o limite.
– Aconteceu!
A muralha da China, tão imponente e sadia – por vezes incerta de suas opiniões, mas nunca incerta de suas capacidades – caiu. Ruiu como se tivesse sido programada para tanto.
Num primeiro momento, em que pese a dar o devido desconto pela situação que lhe proporcionou essa brecha para a queda, mesmo que não acreditemos que seja causa e sim oportunidade, o que se sente é a raiva. Como se deixa de ser alguém tão imponente? Como diabos uma personalidade tão forte se submete aos caprichos da nova geração acovardada? Acorde, reaja, volte a ser quem era!
Os conselhos serão recebidos com ressentimento. O que sobrou da capacidade de ser forte, daquela teimosia arraigada, agora se traduz numa amargura ressentida – só há força para se magoar. “Me dê crédito! Entenda o meu lado! Enxergue meu ponto de vista!”, suplica. Os xingamentos voam, o desespero impulsiona, de repente, tudo vai por terra.
Depois que a poeira baixou, no meio dos escombros, que podem durar dias, meses, você vai achar ela de novo. Pequena, encolhida, chorando – precisando de um apoio que você não sabe como dar, afinal, você nunca precisou exercitar sua capacidade de ser a fortaleza de outra pessoa – pelo menos, a fortaleza dela. Pacientemente, você se abaixa, pergunta se está tudo bem e ela não vai mentir: não está.
O segundo momento, provavelmente o que se eterniza junto com o arrependimento de não ter entendido aquela situação antes, é aquele no qual você se dá conta de que é culpa sua – quem mandou esperar que estivesse ali para sempre? Nada é sempiterno, principalmente para você, dita cética arraigada, desconfiada e fria. Você que sempre preconizou a incapacidade humana de lidar com o tempo fez uma exceção terrível e agora paga por ingenuidade.
Agora, é lidar com os cacos. Juntá-los parte a parte, mesmo que você saiba que eles vão cair novamente. Agora, você assume – tenta lidar com responsabilidades próprias e adquiridas. Agora, você está no controle.
Seja imponente. Seja forte. Use saltos altos que ecoarão de manhã cedo. Tenha sempre aquele horário reservado no cabeleireiro.
E, na melhor das hipóteses, tente se enganar de que o fim da vida e o envelhecimento natural do corpo e do espírito nunca vão conseguir te alcançar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s