Resenha: Sobrevivente – Chuck Palahniuk

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  • Livro: Sobrevivente
  • Autor: Chuck Palahniuk
  •  360 páginas
  • Sinopse:

Tender Branson sequestra um avião e decide se matar. Mas, enquanto o avião possuir combustível, ele resolve contar a história de sua vida para a caixa-preta, numa tentativa de explicar como diabos um sujeito decadente como ele quase se transformou em uma celebridade religiosa.

Segundo livro de Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta, Sobrevivente é uma história cheia de ironia e sarcasmo, que usa como cenário um país que tropeça em seus próprios valores, e onde qualquer um pode virar modelo de qualquer coisa.

Esse livro tem uma premissa ótima.

Infelizmente, isso não quer dizer que ele seja bom.

Tender Branson mora num apartamento pequeno de banheiro compartilhado onde vive com seu peixe (número 641, se não me engano) e trabalha numa mansão, limpando, organizando e guiando seus patrões. Vindo de uma comunidade com uma religião (interessantíssima, mas pouco explorada), ele é o esquisitão da paróquia.

Ele alimenta seu peixinho com Valium e só tem o pobre coitado como companhia. De noite, por um erro singelo num anúncio de jornal, ele recebe ligações de pessoas que estão prestes a cometer suicídio. Seu trabalho, ou ocupação noturna, então, não é tirá-las da linha de risco, mas incitá-las a ir mais rápido para o Outro Lado.

E se fosse só isso, se o livro seguisse essa premissa, seria ótimo.

Mas a primeira cena da narrativa, a primeira de verdade, é ele sequestrando um avião e avisando à caixa-preta que vai se matar. Ele vai deixar o bendito do avião cair e vai morrer ali dentro. É aí que começa o problema.

Nunca li nada de Palahniuk e, depois de ver o filme (e o final) de Clube da Luta, nem pretendo. Não porque não gostei, mas porque, em conjunto com esse livro “Sobrevivente”, já saquei a linha de escrita do autor. E, quando isso acontece, só dá pra continuar se você se identifica muito com o modo de pensar de quem está escrevendo. E, nesse caso, isso não aconteceu comigo.

Chuck quer nos causar um choque de realidade. Ele quer mostrar que nós vivemos num mundo horrível e que tudo é absurdo. Ele faz isso ao alimentar peixes com Valium e fazer seu personagem responsável pelos impulsos finais que levam alguém ao suicídio. E, de fato, não discutiria com ninguém que ele teria sucesso em alcançar seu objetivo. Mas isso era se ele se mantivesse ao que propusera inicialmente.

O livro diverge demais. Você segue a leitura e, de repente, se encontra num ambiente completamente diferente e, por mais que eu entenda que talvez isso tenha sido proposital, de difícil credibilidade.

Por uma breve pesquisa no Google, é possível encontrar algo chamado Suspensão de Descrença Voluntária. O termo foi usado por Samuel Taylor Coleridge em uma frase muito famosa sua e que resume muito bem o problema desse livro. Quando lemos algo como Harry Potter, As Crônicas de Gelo e Fogo e outras dimensões mágicas como essa, temos que deixar de lado algo muito importante: a noção de credibilidade.

Dragões não existem. Mas isso não impede ninguém de ler Harry Potter. Isso se deve ao fato de que, devido à uma construção válida de narrativa, o autor do livro consegue, por alguns momentos, suspender a descrença do leitor voluntariamente. Pelo tempo no qual lemos o livro, acreditamos que, dentro da história, aquilo pode ter acontecido. Porque a narrativa nos leva a tal e porque, de um jeito ou de outro, é assim que aconteceu e, pelo menos, faz sentido dentro daquele contexto.

A Suspensão de Descrença Voluntária, porém, é escassa. A minha, por exemplo, é quase inexistente. Uma das críticas implícitas que eu faço ao ler os livros que leio é justamente isso: qual a possibilidade de algo acontecer como aconteceu? Não no sentido óbvio da coisa: eu não estou pedindo por livros maçantes que retratem a realidade porque ela é a única coisa que pode realmente acontecer. Não, não é isso. O que eu quero é que o autor me ajude o mínimo que seja, se esforce a me fazer acreditar. Do contrário, eu já perco o interesse de cara.

Palahniuk não se esforçou. Novamente, reconheço que possa ter sido essa a ideia inicial, mas isso não muda nada a falta de vergonha escrachada do autor em sequer se preocupar com o tom descrente da narrativa.

E, isso, para mim, já basta por si só.

Por um outro lado, eu gostei, sim, da estrutura do livro. Afinal, como todos os outros, ele tem seus prós e contras. Entenda-os como quiser.

  • As páginas e capítulos estão de trás para frente. Você começa na página 360 e termina na 1 e isso dá um toque a mais de ansiedade em termos de final de livro.
  • Tender Branson quase não fala diretamente. Toda sua existência é praticamente baseada em discurso indireto. Isso talvez tenha a ver com a ideia de Palahniuk em esboçar o quão apático seu personagem é e realmente funciona, porque ele pode muito bem ser considerado tão ativo quanto seu peixinho dourado chapado de Valium.
  • Ele dá dicas incríveis (e duvidáveis) sobre organização e limpeza de casas. É fato que algumas delas envolvem situações absurdas, como o truque no qual ele ensina como disfarçar o buraco de uma bala que furou a sua parede, mas isso não tira nenhum mérito.
  • Se tivesse que resumir esse livro em uma palavra, esta seria “desperdício”. Olha essa premissa!
  • Tender Branson parece um idiota. Mas, sim, isso é um pró, porque, como eu disse, ele só “parece” um idiota. É possível, mesmo por detrás da narrativa em primeira pessoa do livro, notar a “voz do autor”, onde ele dá passagens óbvias de sagacidade e ironia ácida. Branson brilha nesses momentos.
  • É um livro cru, nu e cruel. E, sim, isso é um pró.
  • O livro envolve pessoas que descobrem o futuro, fama, mídia, aterro de pornografia, seitas ortodoxas e rígidas, desastres, viajar pelos EUA em pedaços de casas a serem montadas e mais um monte de baboseira. Lide com isso se puder.

Leria de novo? Não.

Recomendo? Depende de quem vai ler. Como eu disse, é um livro cru.

No máximo, duas estrelas.

11

Até a próxima,

 

C. R.

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