Resenha: Tempo é Dinheiro – Lionel Shriver

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  • Livro: Tempo é Dinheiro
  • Autor: Lionel Shriver
  • 465 páginas
  • Sinopse:

Resenha sem spoiler!

Shep Knacker sempre economizou para a “Outra Vida”: um retiro idílico no Terceiro Mundo, onde um modesto pé-de-meia poderia durar para sempre. Os engarrafamentos de Nova York seriam substituídos por tempo para “falar, pensar, ver e ser” – e por horas de sono suficientes. Quando ele vende sua empresa de consertos domésticos por um milhão de dólares, parece que seu sonho finalmente será realizado. Ainda que Glynis, com quem é casado há 26 anos, sempre arrume desculpas e diga que nunca é o momento certo para partirem. Cansado de trabalhar como um peão para o idiota que comprou sua companhia, Shep anuncia que está de mudança para uma ilha na Tanzânia, com ou sem a esposa.
Recém-chegada de uma consulta médica, Glynis também tem um anúncio a fazer: Shep não pode ir a lugar algum. Ela está doente e precisa desesperadamente de seu plano de saúde. Mas o convênio cobre apenas parte das despesas incrivelmente altas do tratamento, e o pé-de-meia de Shep para a Outra Vida parece se desfazer a cada dia.
Um romance brutalmente honesto, Tempo é Dinheiro acompanha as transformações de um casamento que é posto à prova ao mesmo tempo que se fortalece com as exigências de uma doença grave, e se revela uma inesperada oportunidade para a ternura, a renovação da intimidade e o humor ácido. Em uma pesada crítica aos sistemas de saúde, Lionel Shriver se atreve a fazer a temida pergunta: quanto custa a vida de uma pessoa?

O problema de se discursar sobre algo que muito se gosta é que a imparcialidade da coisa vai para o espaço. A resenha desse livro que vos farei me é custosa porque exige da minha pessoa toda a retidão exigível para a demonstração de algo que valha a pena. Pode ser a melhor coisa do mundo, mas, se temos isso jogado em nossa cara, subitamente, não mais o é.

A tradução livre do título original desse livro de Lionel Shriver seria algo como “Tanto pra nada” ou “Tudo isso pra nada” ou uma variação mais indiferente do que acabei de passar. Esse, no entanto, não é o título original. Com o perdão da ausência de prova, li em algum lugar que Shriver queria dar um título similar ao usado na versão brasileira (“Tempo é Dinheiro”) o que, inicialmente, desagradou os editores pelo tom auto-ajuda que passa.

Mas, infelizmente, ou felizmente para os mais sádicos leitores de Shriver (como eu), o livro é sobre isso mesmo: o esforço de uma vida inteira convertido em dinheiro e o consequente fracasso desse plano (o que não é spoiler, considerando que é a premissa do livro).

Sheperd Armstrong Knacker é um faz-tudo que criou sua empresa do zero e a vendeu nos meados de sua vida com um simples propósito: a angariação de fundos para a viagem para a Outra Vida. Shep é desde pequeno assombrado pela ideia de que seu dinheiro vale muito menos desse lado do mundo do que do outro. Por toda sua vida ele economizou para poder mudar-se para esses locais isolados, com economia pequena e onde um dolar lhe compra uma bicicleta e mais algumas coisas. E agora ele está prestes a fazer isso.

Conhecido pela importância que dá ao dinheiro, paradoxalmente, Shep banca tudo a todos e, ao mesmo tempo em que planeja economizar para viver sua aposentadoria prolongada em outro canto do mundo, sustenta tudo ao seu redor. O homem é um santo e um imbecil, os dois ao mesmo tempo, regrado e sugado por todos. Que ele vá embora se torna o desejo imediato do leitor quando o panorama geral da vida do Knacker é apresentado.

O livro abre com a arrumação das malas e Shep o faz como um ladrão. Ele está com tudo pronto e só precisa que sua esposa, Glynis Knacker chegue em casa para que ele lhe dê o últimato: venha comigo ou seja abandonada!

Mas quando Glynis chega e aceita uma temerária dose de bourbon, ela não traz boas notícias. O diagnóstico de um câncer raro é a notícia da noite e, oficialmente, ela está em tratamento.

Correndo o risco de ser prolixa, eu preciso de um parágrafo sobre Glynis Knacker: se houvesse uma profissão que lhe ensinasse a arte de ser foda, ela seria a professora, com o perdão de Chuck Norris. Ela é dura, fria, inflexível, mas brilhante, sagaz e estupidamente elegante. Ela se aproveita de sua doença para assistir e se deliciar com o sofrimento alheio: não é o tipo de personagem com câncer que inclina a cabeça para o lado e junta as mãos no colo para apreciar a vida. Ela não tem medo de odiar todo mundo, não tem medo de ser incisiva e também não se deixa levar pela necessidade alheia de “ter compaixão antes que seja tarde”. Sua ocupação (e ocupação é uma palavra incerta considerando que supõe habitualidade, o que não há nesse caso) é ser metalúrgica, artista de jóias que envolvem em seu âmago, o metal.

Sendo Lionel Shriver fã de uma metáfora, uma das primeiras dadas por ela no livro é a melhor: a da fonte de casamento que Shep e Glynis construíram em equipe e que simboliza a interação dos dois. Glynis seria o metal – inflexível e brilhante, tornada verdadeira por sua personalidade rancorosa e ríspida – enquanto Sheperd seria a água – vai de acordo com o fluxo, apesar de possuir uma força que advém da insistência e que muito diz sobre o personagem.

O centro do livro é esse. A interação entre esses dois polos diferentes e, por mais que outros planos sejam explorados, como o incrível plot da família Burdina (um pai revoltado com o país, uma mãe que é uma máquina, uma filha com disautonomia familiar e outra com necessidade de atenção constante), é difícil bater a relação entre esse casal, em termos de interesse.

Esse subplot que mencionei, da família Burdina, vale a pena ser deixado no escuro. Apesar de secundário, é de alta qualidade. E é maravilhosamente irônico.

5

Tempo é Dinheiro não se tornou meu livro favorito por ser bonito. Também não foi por possuir uma história inspiradora ou que te faça dar uma olhada em volta para renovar suas relações. Tempo é Dinheiro, porém, te inspira a se dar conta de que a vida pode ser ridícula: que seus planos pouco valem a pena caso o “destino/deus/insira-sua-crença-aqui” realmente decida que não é esse o caminho que você vai seguir. Não existe outra nota que não seja a de cinco estrelas.

Consegui ser imparcial?

Não, eu sei.

Mas não tem problema. Como eu disse, os planos nem sempre vão como previstos.

Até a próxima.

 

C. R.

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